28/maio/2019

Musas do esporte?

O Jornalismo Esportivo é predominantemente masculino, e aos poucos as mulheres vêm conquistando o seu espaço. No entanto, o fato da imprensa esportiva ser historicamente um ambiente masculino, faz com que certos “costumes” sejam perpetuados. É comum abrir um jornal ou um site de notícias esportivas em que as manchetes destacam as atletas por sua aparência física ou por terem um namorado/marido famoso. Além disso, o espaço do esporte feminino também é bastante reduzido.

Dados recentes revelam que somente 3% do noticiário esportivo é voltado para a cobertura de atletas e competições femininas, segundo pesquisa da Women’s Sports Foudation. Outro estudo sobre coberturas jornalísticas no esporte aponta que 85% das matérias eram sobre atletas e modalidades masculinas, apenas 9% sobre atletas e modalidades femininas, enquanto os outros 6% não tratavam especificamente de nenhum gênero.

No Brasil, uma pesquisa realizada pela Gênero e Número avaliou pouco mais de 24 horas da programação esportiva e mostrou que apenas 12% desse tempo, um total de 2 horas e 55 minutos, foi dedicado às atletas mulheres. O motivo para uma diferença tão grande nos números é justificado por uma suposta falta de interesse do público. Menos audiência, menos cobertura.

Menos cobertura significa menos patrocínio, e consequentemente menos desenvolvimento de mulheres e homens que desempenham as mesmas funções. Ou seja, o esporte não é muito diferente de outros ambientes profissionais.

Atletas são expostas na mídia como “objetos de beleza” e “musas do esporte”

Recentemente, a velocista e multicampeã olímpica norte-americana Allyson Felix criticou duramente a Nike em artigo publicado no jornal The New York Times. A atleta acusou a marca de discriminar competidoras que tiram licença maternidade, como foi seu próprio caso.

Allyson tem 33 anos e afirmou que teve valores de seu contrato com a fornecedora de material esportivo reduzidos em 2018 depois que deu à luz a filha Camryn. Ela é considerada um dos maiores nomes do atletismo de todos os tempos, já conquistou nove medalhas olímpicas, das quais seis são de ouro e outras dezesseis em Campeonatos Mundiais, sendo onze de ouro. Allyson é apenas um exemplo em meio a tantos que podem ser citados.

Além da desigual disputa por espaço, outro ponto crítico das coberturas esportivas é a maneira que as atletas são expostas na mídia tradicional, sendo adjetivadas pela beleza e pelas características físicas, com fotos que sexualizam seus corpos e em nada têm haver com o desempenho delas nas competições de alto rendimento.

O título de “musa do esporte” é comumente utilizado em reportagens e a musificação das atletas além de ser sexista, mascara as inúmeras conquistas esportivas dessas mulheres. Atletas profissionais não são musas, são atletas e devem ser tratadas (e respeitadas) como tal.

A desigualdade de gênero no esporte está ligada ao preconceito e ao machismo que ainda estão presentes na sociedade e reproduzidos no cotidiano jornalístico. Enquanto as mulheres não ocuparem esses espaços, a desigualdade e a discriminação vão continuar. Cabe aos veículos de comunicação e aos jornalistas (homens e mulheres) se conscientizarem para que essa realidade não continue se perpetuando no Jornalismo Esportivo.