12/jun/2018

Dois negros que, é o que fica, se mataram numa segunda-feira

Um crime horrível. Dois mortos. O endereço tem no mapa da estatística: a rua 1, num bairro desgraçado, de gente pobre. Bairro Independência Mansões. A mulher – “ah a mulher não deveria estar ali”, comentariam os que gostam de reduzir a mulher ao enquadramento bela, recatada e do lar – bebia com um amigo.

“Numa segunda-feira, sei..”, diria outro. Os dois se desentenderam. O cara bateu nela com capacetadas – segundo a dona do local em que estavam: uma distribuidora.

Ele queria a chave da moto. Ela não quis dar. É o argumento para as três facadas que rasgaram sua pele negra de faxineira. De moradora de barraco. Faxineira “registrada e tudo” numa empresa que presta serviços para a Prefeitura de Aparecida de Goiânia sem endereço nem telefone para um Cais (isso deve dar outra história).

O sangue da mulher escorreu pela calçada e se misturou ao sangue invisível de outras mortes ali na mesma rua anos atrás: até dum menino de 15 anos.

O homem, depois de golpear a mulher com o capacete, foi a um supermercado, comprou uma faca e foi pra cima da mulher. Três golpes. Ela caiu morta.

O homem fugiu caminhando depois de tirar a camisa ensanguentada e jogá-la, com a faca, no lote baldio.

E outra informação distribuída por um porta-voz de curiosos que cercavam a rua na segunda-feira: ele ainda foi à casa da filha da vítima e contou o que fez para a filha dela que chegou ao local do crime com um substantivo rasgando a garganta: “Mãããããe”. E a mãe morta. É o que contam.

Pouco depois, policiais militares ouviram mais ou menos onde o homem morava. E foram lá. O assassino, desobediente, não quis deitar no chão. Mais uma informação que correu, desta vez, noutra rua: dois tiros mataram o homem.

Tento ligar pra delegacia. A delegada responsável não sabia de nada. Os policiais civis, agora com trabalho dobrado – afinal dois corpos-números ensanguentados dão trabalho às formalidades policiais… E não ficou sabendo nada até às 18h, quase cinco horas depois do crime.

Atenção diferente seria dada às mortes de brancos e ricos? Sei lá.

Deixei um lead, oficialesco, com foto cedida por um Louis Bloom goiano (interpretado no filme “O Abutre” pelo ator genial Jake Gyllenhaal. O filme é importante para quem gosta de compreender o jornalismo porque conta a vida do jovem que decide entrar no agitado submundo do jornalismo criminal independente de Los Angeles).

Nos noticiários locais, a versão inglória, anti-jornalismo. Outro crime apenas. Outro assassinato desprezível em um bairro fodido da periferia de Goiás. Dois negros que, é o que fica, se mataram numa segunda-feira quente.

E o atual governador, José Eliton – louco pra ser eleito e suceder seu padrinho Marconi Perillo – tem enorme orgulho da “diminuição da criminalidade”. Onde polícia cabra macho ajuiza a pena: mata homem com uma faca…

E o corpo da faxineira? E do seu algoz? Cadê?