Yago Sales
06 de setembro de 2018

Desde quando amanheceu o dia 9 de setembro de 2017 em Goiânia e Adriana Teodoro de Farias, 43 anos, encontrou o cadáver do filho ao lado do carro emprestado pela namorada dele, cercado de policiais, uma acusação não a deixa dormir. “Você que é a mãe do vagabundo? Quem é que estava com ele e correu?”

Meneando a cabeça, Adriana não sabia se chorava – com soluços – ou explicava que o filho, Wallacy Maciel de Farias, de 24 anos, não era vagabundo coisa nenhuma. Que não era ladrão de carro ou traficante.

Wallacy se tornou um dado. Um número na estatística de supostos confrontos entre criminosos e a Polícia Militar do Estado de Goiás (PMGO). Mas as imagens obtidas com exclusividade pelo Portal Dia Online, anexadas junto a um laudo de exame de perícia criminal encomendado pela 2º Seção da Polícia Judiciária Militar, desmentem a versão sustentada pelos policiais.

Em entrevista para a reportagem, o soldado Lucimar Correia Silva, que atirou no marceneiro, diz que aguarda o julgamento e se defende: “A gente presta serviço de excelência para a sociedade.” Leia entrevista no final da reportagem.

A intenção da corregedoria era identificar pelo menos doze policiais da 5ª CIPM (Companhia Independente da Polícia Militar) que participaram da desastrosa ação que matou, sem chance de defesa, o marceneiro na madrugada da desértica avenida Montreal, no Residencial Canadá, em Goiânia.

Vídeos mostram como policiais mataram marceneiro e forjaram cenário em Goiânia
Cenário do crime. Foto: Reprodução

As imagens mostram a avenida duplicada, com canteiro central, com iluminação fraca, como é costume em bairros afastados da cidade. O primeiro flagrante é a viatura passando às 4h47. É a viatura 8673 conduzida por Rafael Diógenes de Jesus Ribeiro Souza, o soldado Jesus, tendo como parceiro Lucimar Correia Silva, então soldado Correia.

Às 4h49 o carro de Wallacy para, obedecendo às ordens dos policiais. Eles se aproximam, mandando o rapaz sair do automóvel. A vítima abre a porta, coloca o pé no chão e é alvejado no pulmão pelo soldado Lucimar. Wallacy se contorce no chão e morre em menos de um minuto. Enquanto o jovem perde os sentidos, os policias o observam.

Imagens do momento da abordagem e morte do marceneiro

Em três minutos, cinco viaturas surgem no local. Os policiais observam o corpo, examinam o carro com lanternas. Cinco minutos depois do tiro fatal, um policial calvo coloca luvas brancas, se aproxima da câmera que flagra o crime e a encara. Logo depois, três viaturas deixam o local enquanto o policial calvo se reune com os policiais que restaram próximo a uma viatura.

“Em seguida, um policial com luvas brancas caminha em direção ao veículo e se agacha junto ao corpo que estava no chão”, escreve o perito. Conforme familiares e amigo do marceneiro, por volta das 7h um portal de notícias de Goiânia divulgou uma nota, dando conta de que “ladrão troca tiros com a polícia e morre”. O jovem tinha uma arma. A família forçou a retirada da informação.

Outra viatura sai. E mais encenação. Dois policiais abrem e fecham a tampa do porta-malas do veículo, enquanto outro policial vai até o banco do motorista do veículo.

Às 5h, um policial continua examinando o carro. Um minuto depois, ele caminha segurando uma peça de roupa. “Encontrei meu filho sem camiseta. Ele não costumava andar assim”, lembra Adriana.

Entre 5h3min 46seg e 5h4min, um policial com luvas brancas abaixa-se junto ao corpo do motorista por duas vezes, momento em que chega uma viatura ao local. Às 5h12min duas viaturas policiais são estacionadas nas proximidades do corpo e do veículo, enquanto outro policial observa a câmera. As imagens ainda mostram uma movimentação estranha de viaturas.

Policial com luvas se aproxima da câmera e coloca “algo” perto do corpo

Os bombeiros chegaram 38 minutos depois do disparo. O sol ilumina o cenário e a câmera continua flagrando a movimentação dos policias. Às 7h10min, dois policiais pedem para um homem embriagado se afastar do local. Mesmo assim, o homem continua andando, mas leva tapa no rosto e cai no chão. O mesmo policial que o acerta com a mão, lhe dá um chute.

Homem embriagado, segundo testemunhas, é agredido

O objetivo da perícia seria identificar “nomes nas fardas, graduação ou silhueta através da imagem pausada e aproximada” de policiais que “supostamente não preservaram o local do crime, tendo ainda alterado o cenário do crime no que tange o armamento encontrado com a vítima.”

A conclusão do perito, no entanto, não conseguiu identificar os pms, mas ficou evidenciado a manipulação da cena. No Registro de Atendimento Integrado (RAI), um documento em que são unificados registros de ocorrências da PM, do Corpo de Bombeiro, e Polícia Civil, os policiais contam outra versão. Eles explicam que a viatura do soldado Correia foi acionada para dar apoio aos policiais que faziam “cerco e abordagem do veículo” a um suspeito de tentativa de roubo a uma residência.

A respeito do tiro, Correia justifica no mesmo RAI: “A equipe então decidiu deslocar com a viatura em baixa velocidade para a sede da companhia, onde pela Avenida Montreal nos deparamos com o veículo Prisma prata vindo em sentido contrário ao da viatura”.

“E diante da situação a equipe desembarcou indo em direção ao veículo dando ordem várias vezes para que o condutor descesse com as mãos para cima, porém o mesmo só desceu quando a equipe já estava bem próxima ao veículo abordado.”

Na versão, o policial, ainda diz que o “soldado Correia que estava próximo ao para-lama esquerdo verbalizou novamente para que o motorista descesse, tendo o mesmo descido e se abrigando na porta, neste momento o abordado teria feito um movimento brusco tendo neste momento o soldado Correia visualizado uma arma de fogo na cintura do abordado e sentindo-se ameaçado pelo movimento, efetuou um único disparo no intuito de cessar a iminente e injusta agressão tendo o abordado caído ao solo”.

De qualquer forma, apenas um policial foi  indiciado pelo assassinato do marceneiro: Correia, o que atirou.

Vídeos mostram como policiais mataram marceneiro e forjaram cena do crime em Goiânia
Marceneiro morto em ação policial. Foto: Reprodução/Facebook

“Gostaria que todos pagassem pelo crime, tentaram sujar a imagem do meu filho, chamando ele de criminoso. É preciso acabar com a cultura de que matar é a missão da polícia”, recomenda Adriana. “Antes eu defendia que bandido bom era bandido morto, mas assassinaram meu filho sendo um inocente”, diz.

Entre soluços, lembrando do filho, ela explica: “Essa violência policial é culpa da sociedade que apoia cada ação, batendo palmas. Mas quando o luto chega em casa, a coisa muda. É enterrando um filho que esse apoio acaba.”

A respeito do caso, a Comunicação da Polícia Militar do Estado de Goiás enviou a seguinte nota, sem responder à pergunta: qual o motivo de os outros policiais, além de Correia, não sofrerem penalidades?

“Na época do fato foi instaurado pela Corregedoria de Polícia Militar um procedimento, que após concluso, foi encaminhado à Auditória da Justiça Militar, onde tramita o caso.

Assessoria de Comunicação Social”

Policiais se movimentam no local do crime: pelo menos 12 policiais

Soldado é promovido a cabo

Vídeos mostram como policiais mataram marceneiro e forjaram cenário em Goiânia
Lucimar Correia é o único policial denunciado pela morte do marceneiro. Foto: reprodução.

O policial militar Lucimar Correia Silva, de 31 anos, apontado pela Polícia Civil como autor dos disparos que matou o marceneiro Wallacy Maciel de Farias, de 24 anos, recebeu promoção por “antiguidade e merecimento” conforme publicou com exclusividade o Portal Dia Online.

Como publicado na Portaria nº 10709, do Diário Oficial do Estado de Goiás, Silva subiu na hierarquia da Polícia Militar goiana, se tornando cabo. O policial, que ainda não foi julgado, além de atirar no jovem, teria tentado apagar imagens e simulado confronto policial junto com outros policiais. Uma arma teria sido colocada na mão da vítima e drogas no carro, como indicam as imagens acima.

Conforme concluíram as investigações da Delegacia Estadual de Investigação de Homicídios (DIH), o jovem foi abordado horas antes de ser morto por uma equipe de policiais militares que não encontraram nada com ele. Em uma segunda abordagem, quando tentou sair do carro, foi alvejado e morto pelo Correia Silva.

Ainda sem data para o julgamento, o policial chegou a ser afastado das ruas quando Ricardo Balestreri, então secretário de Segurança Pública. Mas, recentemente, ele continua uma vida normal, fazendo academia e patrulhamento. Além de policial, o agora cabo, é um famoso humorista em uma rádio de Goiânia.

“É um absurdo uma pessoa que tenha matado continuar solto e, ainda, receber promoção”, reclama ao Portal Dia Online, a mãe do marceneiro, Adriana Teodoro de Farias, de 43 anos. “Eu cobro Justiça todos os dias da minha vida. Ele precisa ser condenado logo”, diz Adriana.

Procurado à época, o porta-voz da Polícia Militar do Estado de Goiás (PMGO), o tenente-coronel Marcelo Granja, informou que “todos os [policiais] que respondem a processo no próprio sistema são retirados do critério de promoção.”

Ainda de acordo com Granja, “a Comissão solicita os dados da Corregedoria, da Justiça e todos que estão respondendo são retirados para protocolar recurso individualmente. Ele deve ter protocolado e colocado os motivos e a defesa. Se ele foi promovido, certamente foi aprovado pela Comissão”.

“Ele foi promovido por antiguidade, impetrou um recurso – reconsideração de ato – e foi analisado pela Comissão de Promoção de Praças (CPP). Foi analisado pela Comissão, ele retornou ao quadro e foi promovido”, informou ainda o porta-voz. “Mas é preciso ressaltar a questão da presunção de inocência do policial”, explicou.

ENTREVISTA EXCLUSIVA: "A gente presta serviço de excelência para a sociedade", diz policial que matou marceneiro

Em entrevista exclusiva à reportagem, o cabo Lucimar Correia nega que tenha havido modificações no local do crime.

Tivemos acesso às imagens e mostram, no mínimo, movimentações estranhas. O que tem a dizer sobre apenas o sr. ter sido indiciado e denunciado?

Não teve nada de acobertar, ou situação disso aí que você está falando. Não foi julgado, não tem provas.

O sr. teme perder a farda?

A gente precisa aguardar o julgamento porque toda ação policial a gente trabalha, veste a farda, em defesa da sociedade. A gente presta serviço de excelência para a sociedade.

O sr. não reconhece que houve erro de ação, de ter atirado sem dar chance?

O juiz vai julgar isso aí.

Qual o argumento da sua defesa?

O advogado vai fazer. A gente não pode ficar falando com a imprensa porque está em trâmite ainda.