11/abr/2017

Uma mulher não pode vacilar

No dia 14 de março deste ano Marcos pediu pra que Emilly trocasse de roupa, porque ele estava com ciúmes. Os dias foram passando e milhões de brasileiros continuaram a assistir a maior emissora da América do Sul – uma concessão pública – transmitir o ciclo da violência doméstica em todas as suas etapas: Marcos tinha crise de ciúmes, mas constantemente comparava a moça com outras participantes, devastando seu psicológico e cultivando perversamente os complexos de inferioridade e insegurança que são plantados em nossos corações desde que nascemos meninas;

Marcos cobrava maturidade dela – uma garota de 20 anos que acabou de perder a mãe, mas – tendo já quase o dobro da idade da moça – passou dois dias sem lhe dirigir a palavra em punição ao fato de que Emilly não queria romper relações com Ieda, a única pessoa da casa com quem ela se queixava dos comportamentos abusivos do parceiro; é exatamente isso: Marcos colocava Emilly de castigo quando algo no comportamento dela o desagradasse, especialmente se fosse questiona-lo ou desobedecê-lo. Mas depois Marcos abraçava e beijava Emilly e dizia que fazia tudo aquilo porque não queria perdê-la, porque não queria se ver forçado a abandoná-la, porque queria que eles ficassem bem e bem era sinônimo de que ele faria o que quisesse, como quisesse e ela que se adequasse para desfrutar do amor imerecido daquele homem.

Marcos não para. Ele diz pra Emilly coisas na intimidade mas se recusa a repetir para as outras participantes, num movimento ambíguo de amor secreto e indiferença pública, muito conhecido por todas as mulheres. Ela cobra e imediatamente é taxada como louca, histérica e desequilibrada, como todas nós somos tratadas sempre que nos atrevemos a dizer que aquela violência toda não é normal. Mentira, é sim. Loucura é reagir. Então ele se impõe, ele grita, ele aponta o dedo, ele segura o braço, ele belisca, ele derruba na grama, deita por cima e, de repente, chora. “Eu não quero desistir de você” – ele diz, imobilizando a moça com seu corpo, ela então o abraça, chorando, e aceita mais uma vez que ela precisa fazer alguma coisa pra não perder aquele homem.

Quando a justiça finalmente reage e resolve interromper um ciclo de humilhação, devastação e violência TELEVISIONADO POR MESES PARA TODO O PAÍS, Emilly recebe a notícia de modo perverso, ao vivo, diante das câmeras. Ela chora e se desespera, ela se pergunta os porquês daquilo tudo, afinal de contas, somos ensinadas que se um homem grita com a gente é porque testamos a paciência dele, se ele tem crise de ciúme é porque nos ama e se ele nos bate é porque perdeu a cabeça. Ela sente vergonha e culpa, como todas as mulheres que são vítimas de violência. É a essa mulher que as pessoas estão chamando de oportunista, é dela que estão cobrando um sorriso de alívio, é sobre ela que estão proferindo julgamentos e palavras duras.

Eu escrevo esse texto em lágrimas por me lembrar de vizinhas que apanhavam de seus companheiros e diziam que os olhos roxos eram de uma queda. Elas que apanharam, mas são elas que se constrangem. Choro por lembrar de amigas que viveram e ainda vivem relacionamentos violentos e simplesmente procuram em si mesmas as respostas pra cada humilhação, pra cada empurrão, pra cada traição. Eu choro por uma grande amiga que há três anos foi estuprada e até hoje ainda não conseguiu contar para os seus pais por vergonha e medo. Eu choro porque esse sistema sádico que chamamos de machismo prefere questionar as reações de uma mulher violentada a questionar quais os percursos a fizeram prisioneira daquele lugar. Eu só queria que a gente entendesse de uma vez por todas que não existe mulher que gosta de apanhar, o que existe é mulher humilhada demais pra entender que não tem culpa, machucada demais pra reagir, com medo demais pra acusar ou pobre demais pra ir embora.

Eu choro porque eu sei que milhares e milhares de mulheres estão passando exatamente por esse ciclo maldito que a Emilly passou e que ninguém será capaz de lhes acolher, lhes compreender e lhes afagar. Eu queria abraçá-las agora, bem apertado, porque eu sei que o mundo delas está caindo e o nosso está lhes virando as costas.