07/abr/2018 13h04

Lula diz que vai cumprir mandado de prisão

Em discurso emocionado ao meio-dia deste sábado diante de militantes no Sindicato dos Metalúgicos de São Bernardo do Campo (SP), Luiz Inácio Lula da Silva confirmou que vai se apresentar à Polícia Federal para cumprir a pena de prisão.
discurso - 07/abr/2018 13h04

Em discurso emocionado ao meio-dia deste sábado diante de militantes no Sindicato dos Metalúgicos de São Bernardo do Campo (SP), Luiz Inácio Lula da Silva confirmou que vai se apresentar à Polícia Federal para cumprir a pena de prisão.

“Vou atender o mandado (de prisão) deles para fazer transferência de responsabilidade. Acham que tudo o que acontece no país é por minha causa”, afirmou o ex-presidente.

“Eles não sabem que o problema desse país não chama-se Lula, chama-se a consciência do povo, vocês. Quando eu parar de sonhar sonharei pela cabeça de vocês. Eu não sou mais um ser humano, sou uma ideia. (…) Vou cumprir o mandado, e vocês vão ter que se transformar em Lula daqui para frente a andar por esse país fazendo o que têm que fazer.”

“De cabeça erguida eu quero chegar lá e falar ao delegado, ‘estou à sua disposição’. (….) Sairei dessa maior, mais forte, mais verdadeiro e inocente porque quero provar que eles que cometeram um crime. Este pescoço aqui não baixa, vou de cabeça erguida e vou sair de peito estufado de lá.”

Ao iniciar o discurso, Lula cumprimentou nominalmente a ex-presidente Dilma Rousseff, os candidatos à Presidência Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela Dávila (PCdoB), o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e os senadores petistas Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias, entre outros aliados presentes no palanque.

Ele voltou a negar a posse do tríplex no Guarujá pela qual foi condenado e atribuiu sua condenação à pressão da opinião pública e ao interesse em afastá-lo das eleições de outubro.

“Por isso sou um cidadão indignado, por terem passado à sociedade a ideia de que sou ladrão”, afirmou, agregando que “quanto mais me atacam, mais cresce a minha relação com o povo brasileiro”.

Apesar do discurso, ainda não está claro, porém, como será a apresentação de Lula à PF, algo que foi alvo de negociações ao longo de toda a sexta-feira.

O juiz federal Sergio Moro havia definido sexta como o dia em que Lula deveria começar a cumprir a pena de 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Mas uma estratégia do petista acabou por alterar o roteiro traçado pelo magistrado, estendendo para o final de semana o imbróglio sobre a situação.

Após um dia marcado pela reunião de uma multidão em volta do Sindicato dos Metalúrgicos, a Polícia Federal anunciou que não cumpriria o mandado de prisão contra o ex-presidente na sexta, enquanto fontes ligadas ao petista sugeriam que ele poderia se entregar às autoridades nos próximos dias.

Lula veio a público neste sábado, quando ocupou o palanque da missa celebrada por Dom Angélico Bernardino no próprio sindicato, em homenagem à ex-primeira-dama Marisa Letícia. Morta no ano passado, Marisa completaria 68 anos no sábado.

Ao mesmo tempo, o ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin negou, na manhã deste sábado, pedido de liminar feito na véspera pela defesa de Lula, pela suspensão da prisão.

Na sexta-feira (6/4), o Supremo Tribunal de Justiça havia negado também um habeas corpus da defesa, que questionava a decretação da prisão antes que os advogados pudessem apresentar seus últimos recursos – os chamados “embargos dos embargos” no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4).

Negociações

As conversas em torno da prisão de Lula foram lideradas pelo ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e pelo advogado Sigmaringa Seixas. Sigmaringa é amigo pessoal, antigo articulador petista junto ao Judiciário e homem de confiança de Lula.

Já Cardozo liderou a Polícia Federal ao longo dos quase seis anos em que esteve à frente da pasta da Justiça, na gestão Dilma Rousseff. Nesse período, ele conquistou a confiança da corporação por não intervir nos procedimentos investigativos, especialmente naquelas da Operação Lava Jato. Seu comportamento de pouca interferência em relação à corporação chegou a provocar críticas do próprio Lula. Mas foi justamente o estilo que o converteu em um negociador privilegiado do destino de Lula.

Por meio de ambos, o ex-presidente pleiteava ser preso em São Paulo, não em Curitiba, onde uma sala de 15 metros quadrados na sede da PF o esperava há dias. Também fazia questão de estar presente, ao lado dos filhos, à missa em homenagem à Marisa Letícia neste sábado.

Outra exigência de Lula era não passar por práticas vexatórias, como ser algemado (possibilidade que o próprio Moro já havia excluído em sua ordem de prisão), ser colocado em camburão e ter seu cabelo raspado.

Na prática e distante dos olhos da militância, Lula admitia se submeter à ordem judicial e ir para a cadeia em breve. No entanto, deixava claro que sua força política e popular o credenciavam a se entregar em seus próprios termos, e não naqueles estabelecidos pelo juiz Sergio Moro.

Fonte: BBC Brasil