12/fev/2018 13h02

Aos 60 anos, mãe faz faculdade para realizar sonho do filho que morreu

Leonardo queria ser promotor e ajudar pessoas com deficiência. Faleceu um dia antes de começar o curso. Agora, é a mãe quem estuda direito.
faculdade - 12/fev/2018 13h02

Quando Luzinete Pereira chegou ao primeiro dia de aula na faculdade, colegas acharam que ela era a professora. Com 57 anos, aquela poderia também ser a mãe de qualquer um dos jovens naquelas fileiras. O filho dela, porém, não estava entre eles. Leonardo Pereira morreu aos 17 anos, um dia antes de começar a cursar direito naquele mesmo lugar. Era por ele que Luzinete estava ali.

Leonardo tinha amiotrofia espinhal, uma doença genética que atrofia os músculos, relacionada a problemas no cromossomo 5. O sinais apareceram aos 6 anos e médicos disseram que ele viveria até os 7.

Rapidamente, o menino perdeu os movimentos das pernas e dos braços, mas resistiu por 10 anos a mais do que a previsão. Não foi o suficiente, entretanto, para que ele realizasse seu maior sonho: ser promotor de Justiça para atuar em favor de outras pessoas com deficiência. Leo, como era carinhosamente chamado, morreu em 2014 após paradas cardíacas.

No ano seguinte, Luzinete viu a família se desfazer totalmente ao ficar viúva. Após aprender a conviver com o luto, decidiu manter vivo o sonho do filho e encontrar um novo sentido para sua caminhada. Matriculou-se na faculdade de direito, após 40 anos longe da escola, para ser advogada.

Talvez eu não consiga ser promotora da área de saúde. Já tenho 60 anos, mas pretendo advogar de graça para famílias de pessoas com deficiência que não possam pagar”Luzinete Pereira

O filho de Luzinete passou quase toda a vida em uma cadeira de rodas, o que não o impedia de ser um aluno dedicado, um dos mais queridos no Centro Educacional Darcy Ribeiro, no Paranoá.

Em 2005, Leonardo teve uma parte do pulmão retirada para diminuir a incidência de doenças. Em 2008, devido a uma infecção generalizada, o rapaz morou durante seis meses no hospital.

Foto: Reprodução

Em meio aos problemas de saúde, Leonardo não se deixou levar pelo desânimo. Estudou durante as internações. Não reprovou nenhuma vez e só tinha notas maiores do que 7 no boletim. Era igualmente bom em português e matemática. E sobreviveu às piores expectativas. “Ele nunca foi um garoto amargurado. Me dizia todos os dias o quanto me amava e cuidava de mim. Era um menino fora do comum”, lembra Luzinete.

Ele foi protagonista de uma reportagem, em 2011, quando colegas de escola fizeram campanha para comprar-lhe uma cadeira de rodas motorizada. A mãe de Leo deixou de trabalhar para cuidar do filho. O pai era motorista de ônibus. O salário só dava para o aluguel e a comida. A casa simples que dividiam no Paranoá sequer tinha vidros nas janelas. A situação difícil e o carisma do menino atraíram a solidariedade de muita gente.

Nessa época, várias pessoas influentes do meio jurídico procuraram a família para conhecê-la e ajudar Leonardo. Os novos amigos prometeram pagar a faculdade, fizeram melhorias na casa e uma concessionária doou um carro para que ele pudesse ir à escola com mais conforto.

Uma mulher que prefere não ter o nome citado havia se comprometido a arcar com as mensalidades do curso de direito para Leo. Quando Luzinete avisou que ela daria seguimento ao plano, após ele falecer, essa pessoa se prontificou a ajudá-la. “Ela conseguiu uma bolsa de 100% na Unip, onde o Leo tinha passado no vestibular e estudaria. Também me doou todos os livros do curso e eu comecei a estudar”, relata Luzinete.

Atualmente, ela cursa o sétimo semestre e é estagiária no Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde acompanha julgamentos e cuida da documentação de processos. Seguiu o exemplo de Leo e tornou-se uma estudante aplicada.

Fonte: Metrópoles - DF